domingo, 1 de maio de 2011

FILHO DE GADAFI

Apesar da fama do pai, Saif el-Islam Gadafi desfruta há muito tempo de um lugar confortável em meio à elite empresarial, política e filantrópica mundial. Ele foi escolhido como um dos Jovens Líderes Mundiais no Fórum Econômico Mundial, em Davos, e costumava dividir a companhia de oligarcas russos, aristocráticos banqueiros ingleses e acadêmicos respeitados.
Agora, a maioria da alta sociedade londrina o está evitando.
Os ex-seguidores se apressaram para repudiar o arquiteto de 38 anos, talvez o filho mais proeminente do coronel Muamar Gadafi, o líder da Líbia, desde que ele apareceu na televisão estatal prometendo que seu pai lutaria "até o último homem". Vídeos mais recentes o mostraram discursando para partidários de Gadafi com um rifle automático em punho.
Acontecimentos como esses transformaram numa pessoa indesejada o homem que antes era visto como um moderado reformista. A faculdade em que estudou, a Faculdade de Economia de Londres (LSE), devolveu rapidamente o dinheiro que ele tinha doado e agora está investigando-o por plágio em sua tese de doutorado.
[Saif]
Saif el-Islam Gadafi
Howard Davies, o reitor da LSE, admitiu numa entrevista à BBC esta semana que aceitar dinheiro de Saif Gadafi era um risco. "Acho que é correto dizer que esse risco foi um tiro pela culatra para nós", disse. "Tenho vergonha disso."
O jovem Gadafi tem defendido veementemente o regime de seu pai. Numa entrevista à Sky News, ele negou que a força aérea líbia tenha atacado civis que protestavam contra seu pai e disse que os líbios estavam unidos em suas críticas aos Estados Unidos, à Organização das Nações Unidas e à Grã-Bretanha. Não foi possível entrar em contato com Saif Gadafi por telefone e por meio de um contato no governo líbio.
Saif Gadafi nasceu em Trípoli em 1972 e é o filho mais velho do ditador com sua segunda mulher. Ele estudou arquitetura. Saif criou um nicho para si como um liberal pró-ocidente, contrastando com o pai e os irmãos, mais militantes. Em 2002 ele entrou na LSE e começou a pesquisar uma tese de doutorado sobre "o papel da sociedade civil na democratização das instituições mundiais de governança".
Visto como o possível herdeiro de um país norte-africano rico em petróleo, ele se tornou arroz de festa na alta sociedade britânica. O príncipe Andrew, segundo filho da rainha Elizabeth e enviado comercial especial do Reino Unido, o recebeu no Palácio de Buckingham em outubro de 2007. Depois Saif retribuiu em Trípoli a hospitalidade do príncipe.
Em 2008 ele se mudou para uma mansão de 10 milhões de libras esterlinas (US$ 16,3 milhões) na elegante vizinhança londrina de Hampstead Garden Suburb, perto de uma rua conhecida como "Rua dos Bilionários".
Ele também fez amizade com Nat Rothschild, herdeiro da lendária dinastia de banqueiros. Depois, Rothschild recebeu Saif numa festa de noivado no bairro londrino de Greenwich Village; numa caçada de fim de semana no campo inglês; e no palacete da família em Corfu, na Grécia.
Uma porta-voz de Rothschild não quis comentar o estado atual da amizade dos dois, informando apenas que a última vez em que os dois se encontraram foi numa festa em Davos em janeiro.
Saif Gadafi também ficou próximo do bilionário russo Oleg Deripaska, que dirige a gigante do alumínio UC Rusal. Ele se envolveu com os esforços da Rusal para encontrar investidores para sua abertura de capital em 2009, segundo uma pessoa próxima das discussões. A Autoridade de Investimento da Líbia, um fundo soberano, investiu US$ 300 milhões por uma fatia de 1,43% da Rusal, tornando-se um dos maiores investidores da empresa.
Uma porta-voz da Rusal não quis comentar e disse que Gadafi e Deripaska "se conhecem mas não eram amigos íntimos".
No meio do ano passado, Deripaska e Saif foram juntos à abertura de uma exposição de arte líbia em Moscou — que contou com mais de uma dezena de obras do próprio Saif. Depois de uma apresentação de dança, o herdeiro líbio levou repórteres apressadamente pelos artefatos arqueológicos em exibição para chegar a suas próprias obras, como uma chamada "Líder" que retratava seu pai.
"A mim pareceu que ele foi bem educado sobre as coisas arqueológicas, mas logo foi para o salão em que estavam suas obras", disse Lilia Palveleva, uma repórter de uma rádio local que participou da mostra.
Em Londres, uma fundação de caridade líbia controlada por Saif doou 1,5 milhão de libras à Divisão de Pesquisa Mundial sobre Governança da LSE em 2009. Pouco depois Saif discursou na faculdade, onde um professor de ciência política chamado David Held o apresentou como "alguém que busca na democracia, na sociedade civil e em valores liberais profundos o núcleo de sua inspiração". Held não quis comentar.
Mas a recente aparição de Saif na televisão encerrou o namoro. Os estudantes da LSE protestaram as ligações com o clã Gadafi e a envergonhada faculdade anunciou que iria reconsiderar suas ligações com a Líbia "com urgência".
Saif também foi expulso do clube dos Jovens Líderes Mundiais, formado por pessoas admiradas como Sergey Brin, um dos fundadores do Google, e o político indiano Rahul Gandhi. Em texto publicado num blog, David Aikman, que lidera o Fórum de Jovens Líderes Mundiais, disse que a escolha de Gadafi se baseou em seu potencial de um dia comandar um governo líbio mais progressista. "Depois dos acontecimentos dos últimos dias na Líbia e de sua intervenção direta, ficou claro que o potencial não foi alcançado."
A condenação de Saif já se espalhou para outros setores. Um importante parlamentar de oposição, Chris Bryant, disse uma semana atrás que o príncipe Andrew deveria ser demitido do cargo de embaixador comercial por causa das ligações com Gadafi. O Palácio de Buckingham não quis comentar.
Agora já surgiu um movimento para expulsá-lo de sua luxuosa mansão londrina. Shaul Zadka, escritor e vizinho de Saif na Hampstead Garden Suburb, lidera uma campanha para impedi-lo de voltar à área.
"É tão ruim quanto ter Uday Hussein morando do meu lado" diz ele. "Na minha opinião, Saif não é nada diferente do pai." Ele disse que tem apoio dos vizinhos, embora alguns evitem declará-lo: "Eles temem acordar com um cavalo morto na cama", afirma, numa referência a uma cena de "O Poderoso Chefão".

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